08 a 20/03/09
Durante todo este período, só abrimos para voar alguns poucos dias e nestes demos poucos voos.
Um dia, voamos até as 14 horas com o vento e ondas sempre crescente que por fim nos fez encerrar as atividades pois não consegui mais taxiar sem passar pelo risco de virar. Ficou muito difícil mesmo. O filho mais velho de Carlito, Mauricio, estava por lá e voltou comigo voando para a praia da Passagem. O vento forte descolava as térmicas na região do Pontal e quando adentramos o rio voando, começamos a chacoalhar. No inicio foi normal mas quando passamos por cima da primeira ilha já em curva para pouso, o chacoalho foi tão forte que por mais que picasse não consegui evitar de varar o pouso. Fiquei num dilema, se tentasse voltar taxiando, viraria submarino ao invés de Flyboat. Pensei por uns segundo e acelerei para uma nova tentativa de aproximação e decolei. O vento fazia raias no rio mostrando sua direção, devia estar uns 30 Km/h. Decolamos, subimos e encaramos a turbulência novamente só que agora me aproximava do final da primeira ilha em direção à cidade, com isso tinha maior espaço para pousar antes do ponto onde montava e desmontava o FIB. Novamente uma seqüência de rotores nos apanhou a ponto de, as vezes, ter que usar todo o comando para corrigir e, mesmo assim ele ia para onde ele queria e não para onde eu mandava.Enquanto isso, Mauricio achando tudo muito divertido, gritava que nem louco para os pescadores nos barquinhos dizendo que ia cair em cima.Foi assim até tocar a água só que desta vez toquei antes e taxiei em linha reta com vento de frente até a Praia da Passagem. Cheguei acreditar que não conseguiríamos, até para desmontar foi dureza. O vento não deu trégua. Uma hora depois estávamos em “casa”, lavando o FIB.
No domingo deu vento errado e ficamos até as 17hs sem fazer nada, só ao final da tarde fui fazer mais uma manutenção básica no FIB.
Não é só o trabalho que é pesado. Debaixo de calor escaldante tudo fica mais difícil.
O cansaço e desânimo é alem do normal . Começo a entender que o ritmo mais lento do baiano não vem por acaso, o calor intenso deixa a gente realmente acabado antes do tempo.
De fato, por não estarmos instalados com o conforto de um ar condicionado e livre de mosquitos, estamos sofrendo mais, mas lá foi a única opção que achamos para o FIB. Acabamos alugando por 1 mês o quarto do Ben, onde não tem ar condicionado, bate sol na laje sem telhado, o ventilador de teto joga ar quente em cima da gente, as janelas e portas são venezianas e não tem vidro nem tela. O resultado é que não temos dormido bem por causa do calor e dos inúmeros mosquitos com capacidades incríveis em voar na turbulência do ventilador de teto. Nessa última semana acabamos comprando tela e pregamos mais ou menos nas janelas, também fechamos a janela do banheiro e tapamos as frestas da porta, o que diminuiu os mosquitos mas aumentou um pouco o calor.
Temos que tomar cuidado porque se entramos no ritmo local...já viram né !?
Um de nossos voos foi com uma “criança” de 105 kg . Durante a decolagem deixei o motor muito tempo em alta rotação e ele deu uma engasgada que provavelmente foi devido a “boa” gasolina de Itararé.. Diminui o ritmo e ele continuou voando sem problemas. Fiquei apreensivo em todos os outros voos daquele dia. No dia seguinte abri o escape para verificar o que conseguia ver dos pistões e anéis sem ter que abrir realmente o motor. Ao final de 2 dias de trabalho dedicado, constatei que tudo continuava bem mas já teria um item de atenção para a revisão das 50 horas.
Apesar da gasolina de Itararé ser da Petrobras e não ter verificado sujeira ou depósito nos tanques que uso para abastecer, depois desta engasgada, decidimos ir até Ilhéus para comprar gasolina Podium e também tentar comprar um aparelho celular para substituir o da Tea que fiz o favor de perder.
Precisou acontecer isso para ver que estava forçando demais o motor levando qualquer peso indiscriminadamente. Aprendi que deveria limitar o peso conforme o dia.
Também serviu para me dar conta em relação aos voos de graça que fizemos. Como sempre, abro a guarda demais e isso para mim é mais um trabalho, e dos pesados. No caso do FIB, cada voo tem um custo alto direto e indireto e é fruto de um trabalho e investimento. Não podemos fornecer esta alegria com este custo em nossas contas e com esta manutenção trabalhosa. Não é fácil dizer não! Mas, vou ter que ser mais restritivo!.
É realmente muito gratificante compartilhar desses voos, como foi o caso do seu Eliude, que fizemos questão de chamar para voar. Num dia destes pela manhã , acabávamos de montar o FIB na praia e seu Eliude chegado de uma pescaria nos encontrou e o chamei para voar. Logo estava equipado e dentro do FIB esperando Carlito nos levar mais ao fundo do rio para livrarmos o leme e seguir decolagem. Decolamos em direção ao porto Maraú numa curva suave para a esquerda subindo o Rio de Contas. Ao fundo a mata e o mangue beirando o rio era a paisagem que víamos. Vários pescadores em canoas populavam as margens do rio uns jogando tarrafa outros pescavam de vara deixando que o movimento das águas da maré enchendo os levasse rio acima. Eliude olhava para o rio procurando cardumes e vendo as partes rasas por onde costumava deitar sua rede ao rio durante sua hora de pesca em sua canoa. Fiquei imaginando como seus olhos viam a mesma cena que se repetia quando ele saia para pescar agora voando por cima de seus companheiros de pesca. O vento quente soprava o rosto e novamente me sentia os ares de voo. Todas as lembranças de voos me voltam a mente nestas horas. Como é diferente estar voando, verdadeiramente um privilégio. Não por poder voar, mas por desfrutar da alturas e dos mistérios dos ares. Quem voa, só começa a se dar conta disso depois que relaxa voando. Era o que eu sentia naquele momento.
Voltamos a praia da passagem pousando perto de Carlito e Eliude desembarcou para que eu seguisse para a praia da Concha para um novo dia de voo. Carlito perguntou a Eliude o que achou do voo e ele respondeu que foi normal, mas seus olhos o denunciavam. Notei nele um novo olhar, algo tinha mudado. Os mistérios o haviam invadido e maravilhado. Fiquei a lembrar de meus primeiros voos até que acelerei para decolar novamente e seguir em direção a praia da Concha.
Outro dia, eu e Téa aproveitamos uma parada mais cedo e voamos bem alto (1.100m), p/ tirar fotos e ver o planeio do FIB com o motor em marcha lenta. Saímos de Itararé e nos dirigimos a Barra Grande beirando o Istimo de Maraú pelo mar aberto. Chegamos a Piracanga com1100 metros acima do mar. Avistávamos abaixo de nós o rio Piracanga. Sua entrada no mar formava uma pequena Bahia que nos permitiria pousar em caso de emergência. Mais para a frente , do alto, identificamos outra ponta que entrava ao mar e outro rio menor. Não sei se poderíamos pousar lá pois decidimos retornar de Piracanga para Itararé e não chegamos até lá. Fica a possibilidade no ar, e caso seja possível poderemos seguir de Itararé a Barra Grande pela praia oceânica sem risco de ficarmos sem pouso seguro em águas calmas caso tenhamos uma emergência. Este voo ficará para depois. Voltamos no planeio que durou 20 minutos e terminou na praia da Passagem onde pousamos e desmontamos o FIB para guardá-lo.
Aqui estão algumas fotos tiradas graças ao Sergio Bassi que nos fez um favorzasso de nos enviar o carregador de baterias sobressalente de nossa câmera pois o principal havia queimado por razões exotéricas! Segundo o Sergio Bassi, soldas rendem ..! Essa é outra boa história cheias de situações diferentes como carretas largando rodas que passam pelo carro, procura de rodas no mato e muitas coisas mais ! Quase foi trágica mas acabou sendo cômica! Valeu Sergião , Ieda, Clarinha e Didi!
Durante nossa estada, conhecemos Andrezza e Ricardo que deixaram São Jose dos Campos para tentar a vida por aqui em Itararé. Logo os descobrimos em Itararé. Em várias ocasiões falávamos que éramos de São José e as pessoas nos aconselhavam a falar com eles pois também eram de São José. Estão em Itararé a algum tempo e abriram uma Sanduicheria e Tapiocaria “muuuito” boa na praia da Concha. Andrezza nos contou muita coisa sobre a cidade e os negócios em Itararé. Nos ofereceram todo o apoio possível com a maior das boas vontade para nos explicar a cidade.
Depois de toda essa epopéia,e tempo voando em Itararé, decidimos seguir viagem para conhecer outros pontos.
O retorno a Itararé está duvidoso para nós. Achamos o clima muito instável com a direção do vento predominante não sendo as das mais perfeita para a decolagem. Não temos certeza quanto o aproveitamento do movimento fora dos feriados. O fato de termos de rodar 150km para comprar gasolina podium, a marinha exigindo projeto e prefeitura exigindo uma série de coisas para a operação nos desestimulou. Apesar disto providenciamos o necessário e demos entrada em projetos e pedidos de alvará para podermos firmar o ponto e voltar mais tarde ..........ou não.
Financeiramente Itararé não valeu a pena , pois os voos feitos não cobriram nem a soma dos custos da operação, manutenção, depreciação e estadia. No fim acabamos trabalhando de graça, mas valeu pelo aprendizado.
Para terem uma idéia, pelas nossas contas teríamos que voar uma média de 30 voos por dia para termos uma remuneração decente com o FIB. Fora de temporada temos voado menos que 5 voos ao dia , o que é bem longe do ótimo.
Provavelmente acontecerá o mesmo ou até pior nos próximos lugares que visitaremos, mas colocamos em nossa cabeça que estamos fazendo somente uma viagem de reconhecimento e aprendizado.
Uma coisa engraçada é que recebi aqui vários telefonemas com proposta de emprego e de trabalho, mas ainda assim, prefiro continuar a viagem até abril como havíamos proposto.
Ainda temos muito o que aprender e lugares a visitar.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
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